Miséria. 1936.

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Fernando Pierucetti. Miséria. 1936. Carvão/Papel. 58 x 70 cm. Museu Mineiro. Belo Horizonte.

A cena a que se assiste na obra Miséria é instigante: uma mulher enrolada em um cobertor rasgado tenta proteger seu filho mais novo. Apesar de crianças, os dois filhos mais velhos já receberam a atenção possível para uma família que tem que sobreviver na rua. A materialidade da obra cumpre uma importante função na composição do tema: o papel consumido assemelha-se à história da família repre­sentada no desenho.

A mulher está envolvida em um tecido ou cobertor que se mostra rasgado e com as extremidades surradas. O cobertor envolve quase todas partes do seu corpo, deixando à vista apenas o rosto, os pés e a mão direita. As partes visíveis são desproporcionais, assim como as apresentadas em algumas pinturas de Portinari. A mão direita da mulher segura uma criança, que só é percebida pelo contorno da orelha, cabeça e nariz. Essa cena ocupa grande parte do espaço figurativo e não comunicar com os outros personagens da cena e também exclui o espectador. A cabeça abaixada da mulher em direção ao menino parece enunciar que ela oferece o aconchego necessário, assim como as mães fazem para seu filho dormir ou para amamentá-lo.

Uma segunda criança – que só sabemos que é criança em compara­ção ao tamanho da mulher -, também com as roupas rasgadas, aproxi­ma-se da cena com os olhos fechados, parecendo carregar uma peque­na cumbuca, e com a mão aberta, conduz algum objeto na mão direita. Essa criança entra na cena e está tão absorta no seu gesto que não cria associação direta com os personagens.

A associação com o observador é construída de forma desconcertante ao circularmos o olhar pela cena e sermos atraídos por uma diagonal que representa o banco onde está sentada uma criança que olha direta­mente para o observador. A criança está sentada com os pés cruzados, mas parece perseguir o transeunte que passa rapidamente pela cena e não quer ser cúmplice daquela situação. Quantas vezes pelo centro de Belo Horizonte ou de uma grande metrópole essa cena parece se repetir? Desviamos de carros, de pessoas para uma passagem rápida, anônima.

Para saber mais: VIVAS,Rodrigo. Por uma História da Arte em Belo Horizonte: Artistas, exposições e salões de arte. Belo Horizonte: C/ Arte, 2012. 248 p.

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