Pintura, 1964.

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Ivan Ferreira Serpa. Pintura. 1964. Tinta a óleo s/tela. 175 x 199 cm. Premiação, XX SMBA/PBH, 1965. Acervo Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte.

Serpa realiza um rosto deformado que parece se projetar da escuridão ou, possivelmente, coloca-se psicologicamente na escuridão ao ser tocado por uma imagem aterrorizante. Não é possível conhecer qual imagem ou situação é capaz de produzir tal expressão e, por isso, o espectador é convidado a se imaginar no espaço interno do quadro. Mas há quanto tempo se desenvolve a cena? A sensação não parece ser de “congelamento”, mas de um movimento expressivo e lento caracterizado por um observador que acompanha o desenrolar de uma cena traumatizante. O medo parece consumir o personagem que, apesar da expressividade da face, não se mostra capaz de assumir qualquer ação.

(…) Em entrevista concedida em 1972, Ivan Serpa justifica a criação das obras pertencentes à “Fase negra”. O artista afirma que passava por um momento de “[…] angústia, sufocação e descrença na vida”. Algumas passagens deixam essa sensação evidente:

Uma noite, voltando para casa, encontrei um amigo que trabalhava na polícia e que estava fazendo a ronda num desses carrões. Então, tive a ideia de pedir a ele para ir junto e ver o que estavam fazendo. Fui. “Estamos pegando malandro.” Ele havia me dito. Então, eu vi a coisa – a batida – pegar o sujeito, jogar lá dentro, o sujeito xinga, diz que não tem culpa, aquela coisa toda. Eu vi a reação do indivíduo, como o indivíduo reage – a briga, às vezes tem que se dar uma bolacha no cara e tal. Então, aquilo me serviu para tirar conclusões, para fazer as figuras horrorosas que eu fiz e que as pessoas diziam: “mas tem a cara torta assim.” Mas se você leva um soco na cara, como é que fica seu rosto? Um negócio assim de impacto e não perguntar se está certo ou errado. A “Fase negra” foi isso. Era pra dar um soco na cara de quem não quer ver a realidade das coisas e não para ficar perguntando se está certo ou errado. Esse era meu pensamento.

Para saber mais: VIVAS, Rodrigo. Abstrações em movimento: Concretismo, Neoconcretismo e Tachismo. Porto Alegre: Zouk, 2016. 140 p.

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